Conexão Barra Funda – Por Arthur Tirone

Todo menino que se preza sonha ser um jogador de futebol. A minha vida nos anos 80 pode se resumir a apenas quatro letras: B-O- L-A. Arranquei a tampa do dedão no paralelepípedo, treinei severamente o meu número clássico: o espetacular chapéu com a bola no chão, pulei muro de terreno abandonado pra ficar batendo bola na parede, tentei enganar o efeito daquela bola de leite mais leve que o ar, disputei durante anos gol-a- gol com um amigo e sei, depois de mais de duas décadas, que estamos empatados em 92 partidas, cabulei aula pra jogar contra os temidos moleques da Rua Jaraguá, cheguei a imaginar que tinha qualidade pra ser jogador – até eu descobrir precocemente os delírios da cerveja. Na época da puberdade, se eu não estava no banheiro, estava jogando bola.

Nos jogos do colégio, fui o camisa 10. Depois na várzea também – período de pouca duração, pois a noite acabou vencendo a bola. Entre a molecada existia uma lei: o mais ruim – me deem a licença do termo – era escalado no gol. Essa coisa de que goleiro necessariamente tem que ser louco é verdade. Ele é o anti-boleiro, aquele que tem como premissa estragar a festa. E vive no fio da navalha. O Brasil condenou à morte em vida o Barbosa, goleiro na copa de 50. E os maiores goleiros do mundo já engoliram um peru daqueles de sentar na guia e chorar. Mas ninguém chegou aos pés de Alex Muralha.

Sua atuação ontem não deixa dúvidas de que se trata do maior personagem do futebol da atualidade. Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar ficam abaixo dele simplesmente porque desempenham uma função que sabem fazer. Ponham Neymar num foguete com mil botões e mandem ele pilotar – é isso o que faz Muralha no futebol. Antes de tudo, trata-se de um estelionatário de respeito, um impostor de altíssimo gabarito, ele é o próprio golpe do bilhete premiado. Muralha foi goleiro da seleção brasileira, porra.

Suas repetidas lambanças são tão espetaculares que vêm se tornando um show a parte. Eu nunca parei pra assistir jogos de outros times que não o meu. Mas hoje, confesso, tenho muito tesão em assistir a um jogo do Flamengo por causa deste mito. Muralha já é um fenômeno do marketing. Eu gostaria mesmo de conhecer a pessoa que lhe apelidou imagino que só pode ter sido Washington Olivetto, tido como o gênio da publicidade.

Alex Muralha me comove demais. Ele é o português da piada que, andando pela rua, avista uma casca de banana e pensa “ai, meu deus, lá vou eu levar mais um tombo”. Como um Rocky Balboa, apanha sem dó quarenta e dois assaltos: jab da imprensa, gancho da torcida, porrada no fígado, na cabeça, e tá lá, com aquela cara de “como ainda estou aqui?”, ensaiando a próxima e inevitável cagada. Poucos têm a coragem de, depois de entregar todos os jogos no ano, tentar meter uma caneta no Ricardo Oliveira. Isso é dramaticamente admirável.

Thomas Edison tentou e errou mil vezes antes de inventar a lâmpada. Eu espero ansiosamente o dia da redenção gloriosa de Alex Muralha, que nunca virá.

Arthur Tirone

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